si·lên·cio
existe um tipo de silêncio muito específico. não significa paz; significa represamento.
é o silêncio feito daquilo que engolimos, das frases que ensaiamos mentalmente em frente ao espelho ou durante noites em claro, mas que nunca encontram passagem pela garganta.
existem palavras que travam antes de saírem. medo de rejeição, vergonha, orgulho ou simplesmente porque acreditamos, presunçosamente, que o tempo é infinito e que haverá um momento certo no futuro.
adiamos conversas decisivas como quem adia uma tarefa qualquer, esquecendo-nos de que as pessoas mudam. mudam de cidade, de país, de sentimentos. ciclos se encerram, distâncias se erguem e a vida, indiferente às nossas hesitações, não interrompe o próprio curso para conceder-nos a coragem que não tivemos.
o verdadeiro peso, entretanto, surge quando a oportunidade desaparece para sempre. quando a vida impõe uma partida seja pelo fim imprevisível de um relacionamento, mudança, pelo afastamento inevitável dos anos ou pela finitude da própria vida.
o silêncio deixa de ser uma escolha e se torna uma sentença. nesse ponto, o ‘‘e se?’’ ganha uma dimensão esmagadora.
‘‘e se eu tivesse dito o quanto amava?’’
‘‘e se eu tivesse pedido desculpas a tempo?’’
‘‘e se eu tivesse deixado o orgulho de lado para dizer o quanto aquela pessoa importava?’’
o arrependimento pelo que foi dito pode doer, mas o arrependimento pelo que jamais encontrou voz carrega consigo a angústia da dúvida eterna. é a culpa em carregar frases inteiras, sentimentos profundos e verdades sinceras que, quando finalmente compreendemos a urgência de entregá-los, já não possuem endereço.
há uma espécie particular de luto naquilo que não pôde ser dito. não lamentamos somente a ausência de alguém, mas também a impossibilidade de testemunhar o que aquelas palavras poderiam ter transformado. permanecemos com elas dentro de nós, intactas e inúteis, repetindo em silêncio aquilo que já não pode alcançar quem deveria ouvi-las.
reconhecer-se nessa dor é o primeiro passo para tornar a saudade em maturidade.
se a vida nos ensina algo através da perda e do remorso, é a urgência do afeto e da honestidade. não vale a pena guardar o amor para amanhã, tampouco adiar o perdão para quando for mais conveniente. existem sentimentos que não deveriam depender de uma ocasião perfeita para serem pronunciados.
que as palavras não ditas do passado sirvam de advertência ao presente.
que não negligenciemos a oportunidade de dizer o que realmente importa enquanto ainda houver alguém do outro lado capaz de ouvir.