per·ma·ne·cer
eu gosto de sair comigo.
hoje almocei em um lugar onde nunca almoço; tomei café em um lugar onde nunca havia estado.
faço isso comigo com certa frequência. digo ‘‘comigo’’ porque não me sinto sozinho. basta que alguém se tenha verdadeiramente para que a solidão se torne uma escolha.
raramente me deixo só. pego-me pela mão ou deito ao meu lado até sentir vontade de levantar. apesar de ser muito duro comigo, na maior parte do tempo sou meu próprio amigo. concedo-me os confortos possíveis e os silêncios necessários. já me acostumei aos meus momentos de permanecer quieto por fora enquanto alguma coisa continua acontecendo por dentro. sempre tenho algo a ouvir, algum lugar para onde ir, alguma coisa que me faça continuar vivendo apesar de.
já fui mais cruel com meus defeitos. hoje, inclusive, penso que preciso de alguns daqueles que ainda não consegui mudar. há partes que mandei embora e das quais sinto falta; gostaria de tê-las de volta em uma dose mais ajustada, sem os excessos que um dia me fizeram querer expulsá-las de mim. usufruí bem de algumas delas, é verdade.
reconheço minhas melhoras, mas não vou negar que ainda preciso de algum devaneio. o mundo real é careta e injusto demais para que se viva nele o tempo inteiro sem alguma espécie de fuga.
finjo que não ouço quando duvido de mim, mas ultimamente tenho gritado tão alto que já não sei se ainda estou fingindo.
nunca experimentei a falta de coragem. talvez seja por isso que não tenho me encontrado nem mesmo com hora marcada.
aparecerei sem avisar em lugares novos, como quem procura reencontrar alguma coisa que já conhece. quero ver se ainda existem corações nas ruas, no céu, nas coisas. quero descobrir se o mundo perdeu as cores ou se fui eu quem desaprendeu a procurá-las.
há partes de mim de que sinto saudade.
talvez, seja para elas que eu esteja saindo. não para encontrar um novo alguém, nem para chegar a algum lugar extraordinário. apenas para caminhar até onde alguma versão antiga de mim ainda possa estar esperando, distraída, na mesa de um café, olhando pela janela e perguntando por que demorei tanto para voltar.
quando encontrá-la, não pretendo pedir explicações.
vou me sentar ao lado dela.
e, pela primeira vez em muito tempo, permanecer.