frag·men·to
faz dias que ensaio um adeus.
um repertório de conversas que passa e repassa inúmeras vezes pela minha cabeça. palavras entaladas que se formam na garganta, mas não encontram passagem; ou talvez já não queiram encontrá-la. agarram-se a mim como se fossem constituídas da mesma matéria de que sou feito e, hoje, escorrem pelos meus dedos com a lentidão das coisas que sabemos estar perdendo.
esse adeus não é para você; é para a versão de mim que existe com você.
existir sem ela significa deixar uma parte de mim para trás. contudo, coexistir já não faz sentido. há qualquer coisa de insuportável em sentir que essa parte vive com você e apenas me visita, como uma lembrança que se recusa a reconhecer a própria morada.
é difícil abrir mão dessa parte de mim em seu favor; abdicar dela e aceitar que, apesar de ter nascido em mim, já não me pertence.
é sua.
ouvi dizer que, quando alguém alcança em nós alguma região que ninguém mais consegue tocar, é porque aquela região lhe pertence de alguma maneira. gosto de pensar que existe uma parte minha que é apenas sua e, quem sabe, uma parte sua que algum dia será minha. há certo consolo nessa ideia, como se nem tudo aquilo que perdemos precisasse desaparecer por completo.
isso deveria bastar, não?
mas esse pequeno fragmento me consome, persegue-me e assombra-me. há obsessões que encontram na impossibilidade o alimento perfeito para permanecerem vivas. quanto menos podem existir no mundo, mais espaço conquistam dentro de nós.
o pensamento repetitivo, o objeto de desejo, o fetiche abafado, a música não ouvida, a mensagem não enviada, o momento não compartilhado, o sonho embaralhado, a palavra que morreu antes de alcançar a boca… tudo.
tudo se transforma em lembrete; um lembrete de que preciso esquecer. e, enquanto me esforço para lembrar de esquecer, sou capturado outra vez.
perdi.
amanhã, lembrar-me-ei novamente.
esquecer aquilo que, em mim, somente existe com você.