ou·tro la·do
quando falamos sobre distância, quase sempre falamos sobre saudade.
mas, para mim, a pior parte da distância não é a saudade; é aquilo que ela faz com a intimidade.
sobre quem parte, não testemunhamos o acontecimento silencioso de se tornar outra pessoa. existem medos de que não vemos nascer, pensamentos cuja origem desconhecemos, novas maneiras de enxergar o mundo que surgem ao longe. perdemos pequenas mudanças, descobertas aparentemente insignificantes e detalhes que, somados ao longo do tempo, transformam alguém sem que sequer percebamos.
a distância não nos tira necessariamente o amor; tira-nos o privilégio de testemunhar.
olhamos para quem partiu e enxergamos coragem. muita, é verdade. e quem parte também nos assiste do outro lado, descobrindo o trabalho do tempo pelas frestas, fotografias e poucas conversas.
entre tantas coisas que a distância me ensinou, talvez a mais bonita tenha sido que o amor continua existindo mesmo quando deixamos de ser espectadores.
continuamos a amar as pessoas que partem.
amamos enquanto perdemos, pouco a pouco, o acesso à transformação.
amamos, inclusive, versões delas as quais ainda não conhecemos e que, justamente por não termos acompanhado nascer, conseguem nos fazer falta antes mesmo de sabermos exatamente quem são.