se·xy
em uma época devotada ao efêmero, apaixonar-se pela profundeza de uma mente torna-se uma revolução silenciosa.
o atual pensamento não trata da inteligência que se exibe, de nomes empilhados em uma conversa ou citações cuidadosamente escolhidas para produzir admiração. reflito ser profundamente desinteressante quem precisa provar que sabe. se me perguntares o que me fascina, direi ser a inteligência que não chega anunciada, mas se revela na maneira como o outro observa uma situação, formula uma pergunta, compreende uma contradição, e interrompe uma certeza para considerar uma possibilidade que ninguém havia enxergado. a beleza não é apenas superficial; ela é sináptica.
a pessoa sexy é aquela que nos faz querer permanecer em uma conversa muito depois de já não haver assunto; a pessoa sexy é aquela que bagunça sua mente, não apenas seus lençóis. seria esse o momento em que alguma forma de intimidade se inicie?
dialogar com outro é permitir que essa pessoa atravesse a arquitetura provisória de nossas convicções. entregamos ideias que ainda não terminaram de nascer, lembranças que nunca soubemos organizar, opiniões as quais desconfiamos, questionamentos que guardamos por vergonha de parecermos ingênuos. uma nudez particular em ser compreendido no lugar exato onde ainda estamos tentando compreender a nós mesmos.
algumas pessoas nos escutam; outras nos fazem pensar; as raras conseguem ambas as coisas.
complexo explicar o que ocorre quando encontramos alguém assim. uma frase permanece na cabeça durante horas; uma pergunta continua trabalhando dias dentro de nós; uma discordância, em vez de ofender, abre uma passagem. de repente, aquilo que parecia definitivo revela uma fresta, e por ela entra uma versão do mundo a qual não havíamos considerado.
uma espécie de desordem; desordem essa que nos devolve a vida.
há pessoas capazes de modificar a maneira como olhamos para o mundo. depois, elas partem. e, quando partem, uma música pode significar outra coisa; um livro pode esconder uma pergunta que antes não percebíamos; uma rua pode parecer menos ordinária. até uma palavra, quando pronunciada por outra voz, pode adquirir uma profundidade que nunca suspeitáramos.
há quem não deixe nada; há quem deixe perguntas; há quem nos atravesse a mente e jamais nos devolva exatamente ao mesmo lugar.
pouse o pensamento por um instante: certa vez, a alma de alguém te seduziu antes que teus olhos pudessem alcançar a face?