ins·tan·tes
esse texto nasce no susto, sem qualquer vestígio de desespero. também não me faltava inspiração, pois, para escrever, basta estar vivo.
para que esse texto tivesse algum sentido, eu precisava de tempo; tempo vivido, coberto pelo acaso. antes de escrever, era preciso deixar-me tomar pelos caminhos e permitir que alguma coisa me acontecesse antes de tentar transformá-la em palavra. foram noites de sono agitado, sono esse feito de angústia. passei dias repetindo que estava cansado, e o dizia com tamanha frieza que parecia, de fato, ser apenas cansaço. uma palavra preguiçosa até mesmo na fala e, justamente por isso, tão bem aceita.
repeti tanto que a palavra acabou adquirindo sentido pela própria insistência.
o que eu queria dizer com isso?
era uma maneira fácil de dizer desistência. a desistência em ter sonhado sem fim sonhos ilusórios, feitos de uma gota de possibilidade e só. um mal de tempos, de insuficiências, de chegadas determinantes quando já não padronizadas.
durante esse tempo em que precisei deixar-me levar para voltar a viver, notei que as noites agitadas sempre me conduziam ao mesmo lugar da insuficiência. passei dias sem anotar uma única observação. sentia-me insuficiente antes mesmo de encontrar o bloco de notas.
deixei de encontrar sentido em mim.
se aquilo que escrevo já não era suficiente para o exato tempo, quem eu era, então?
ainda sobre sonhos, os que se tornam realidade também se transformam em outra coisa; uma coisa sem nome porque aquilo que se sente ao alcançar nunca corresponde inteiramente àquilo que se imaginou enquanto ainda era apenas desejo.
é como uma corda cujos nós vão se desfazendo pouco a pouco. quando termino, ela permanece cheia de marcas. testemunho, então, cada aperto, cada tentativa, cada instante em que precisei segurá-la para não cair. marcas feitas pelos encontros imprevistos, desvios que eu jamais teria escolhido, mãos que apareceram no caminho e ausências que me obrigaram a mudar de direção.
nomear seria exigir uma precisão que a vida nunca prometeu, e as poesias e pessoas mais bonitas não são nomináveis e nem compreendidas. são, apenas. e há tanta beleza em ser.
esse texto é um pedido da vida, e por isso nasce arrebatador e ligeiro. somente agora posso compreender do que se trata estar tomado por ela, olhar pelas suas entranhas, aceitar o que surge de um instante ao outro e não exigir que aquilo que me acontece venha acompanhado de explicações.
passei tempo demais tentando compreender a vida antes de simplesmente vivê-la. agora, quando alguma coisa chega, eu quero estar presente para recebê-la.
viver é estar tomado de instantes, e é preciso permanecer atento o suficiente para reconhecer aquele que, entre tantos outros, por alguma razão que talvez eu nunca consiga explicar, fará todo o restante ter valido a pena.