ve·ros·si·mi·lhan·ça
há pessoas que chegam à nossa vida antes de chegarem a nós.
você é uma delas.
é estranho pensar nisso, porque não tenho de você nenhuma lembrança que possa chamar de minha. não conheço o peso de sua presença em uma sala, o som de sua voz quando está cansado, o modo como seus olhos procuram alguma coisa quando não sabe o que dizer. nunca vi sua mão repousar sobre uma mesa, ou seus passos por uma rua qualquer. nunca soube como você fica em silêncio ao lado de alguém que ama.
e, ainda assim, há qualquer coisa em você que me parece antiga.
não é saudade. saudade pressupõe um passado, e nós não temos um. talvez seja justamente isso que torne tudo tão difícil de nomear. não sinto falta do que vivemos, mas daquilo que, por alguma razão, meu íntimo insiste em reconhecer como possível.
às vezes, penso que certas pessoas não são encontradas; são pressentidas.
como se, antes do encontro, existisse uma espécie de reconhecimento mudo. uma familiaridade sem memória. um lugar dentro de nós que, durante muito tempo, permanece vazio sem que saibamos por quê.
até que alguém aparece.
ainda distante, ainda desconhecido. e alguma coisa se move. imaginamos, pela primeira vez, quem poderia ocupar aquele espaço.
observo que, talvez, seja isso que acontece comigo quando penso em você. invento seus gestos não por querer lhe transformar em fantasia, mas porque ainda não tenho outra matéria para moldar sua presença.
imagino sua impaciência, manias, silêncios.
imagino as pequenas coisas que poderiam me fazer descobrir que a pessoa que idealizei não existe, e, curiosamente, essa possibilidade não diminui o que sinto. talvez o torne mais verdadeiro.
quero descobrir onde você erra.
saber quais partes eu teria dificuldade de compreender, quais palavras você engoliria antes de dizê-las, qual tristeza esconderia atrás de um dia aparentemente comum. quero descobrir as contradições que nenhuma imagem poderia me revelar; encontrar o que existe em você para além daquilo que consigo imaginar.
há uma intimidade estranha em desejar conhecer alguém assim. é quase como sentir falta de uma conversa que nunca aconteceu.
às vezes, tenho vontade de lhe contar coisas que ainda não aconteceram entre nós. pequenas coisas, sobretudo. algo que vi na rua. uma música que me fez pensar em você. uma frase que eu teria vontade de ouvir de sua boca. um medo que apenas confessasse depois de muito tempo.
e, então, percebo o absurdo: não existe esse nós para onde eu poderia levar essas coisas. não há entre nós uma história que as comporte, e, no entanto, elas já parecem pertencer a algum lugar.
porventura, certas relações comecem justamente assim. não quando duas pessoas se encontram, mas quando uma passa a existir na interioridade da outra. há qualquer coisa de assustador nisso: descobrir que alguém que ainda não tocou nossa vida já conseguiu, de certo modo, transformá-la.
você pode existir longe, vivendo dias dos quais nada sei, amando outras pessoas, atravessando problemas que jamais conhecerei. pode estar agora em algum lugar sob a mesma chuva que cai sobre mim, sem fazer a menor ideia de que alguém, em algum canto do mundo, pensa em você com uma delicadeza que normalmente reservamos àquilo que já perdemos.
essa é a parte mais silenciosa.
existe algo profundamente solitário em sentir que alguém é importante antes de ter qualquer direito de chamá-lo de importante. não posso dizer que você me conhece. não posso dizer que você me pertence. não posso sequer dizer que você fará parte de minha vida. posso apenas admitir que, de um modo o qual não sei explicar, você deixou uma marca em uma parte de mim que ainda não sabe como recebeu seu nome.
quem sabe eu esteja apenas dando forma a uma ausência que sempre esteve aqui.
talvez eu tenha encontrado em você não uma pessoa, mas a possibilidade de uma pessoa. talvez tenha me apaixonado não pelo que você é, mas pelo que alguma coisa em mim reconheceu quando olhou para você.
mas existe uma diferença entre inventar alguém, e sentir que alguém despertou algo que já existia. e é nessa diferença que eu permaneço: sem passado para recordar, sem futuro para prometer, sem um abraço que possa chamar de memória.
apenas essa sensação quase absurda de que, se um dia eu finalmente encontrar você, alguma parte de mim possivelmente não diga
“prazer em conhecer”.
talvez diga apenas
”então era você”.