mar·gem
durante muito tempo, confundi retenção com virtude.
havia uma altivez silenciosa no ato de não pedir, de não me entregar por inteiro, de conservar sempre uma parcela inacessível ao mundo. julgava prudente amar sob reserva, como quem caminha pela margem de um rio sem jamais decidir a travessia, pronto a recuar ao primeiro sinal de correnteza, consolando-se com a certeza antecipada da despedida.
você foi o primeiro a desarmar essa prudência, revelando a feição exata da covardia. não por exigência, mas justamente pelo oposto. você não arrombou as portas que mantive trancadas; limitou-se a esperar que eu compreendesse a insensatez de habitar uma fortaleza vazia.
havia em sua presença um silêncio que não constrangia. eu poderia emudecer sem o peso de justificar a minha pausa; uma intimidade quase insuportável para quem passara a vida escondido atrás do vocabulário correto.
foi assim que comecei a lhe confiar aquilo que sempre guardei com zeloso pudor: não meus dias luminosos, fáceis de ofertar a qualquer um, mas minhas sombras mais recônditas.
minhas contradições, o medo travestido de indiferença, a fragilidade que tantas vezes tentei converter em aprumo.
pela primeira vez, desisti de parecer inteiro. descobri que a exposição não trazia a humilhação temida. o verdadeiro suplício era a vida inteira passada nos porões do recato.
há uma nudez mais profunda do que aquela que o corpo conhece. é o instante em que permitimos que o outro alcance o pensamento antes mesmo de sua formulação definitiva. é admitir a ferida aberta, a falta sem nome, o desejo de um abraço que a timidez proíbe de pedir. é entregar a medida exata da própria ruína, confiando que essa fraqueza não se tornará arma.
foi o que você recebeu. e, com isso, herdou o peso inevitável que recai sobre duas almas quando o afeto deixa de se sustentar apenas no que há nelas de belo. você conheceu os meus escombros; eu, os seus.
dei-me conta de que entrega não é anulação do indivíduo.
não desejo ser absorvido, tampouco anseio por dissolvê-lo em mim. quero o exercício mais árduo: permanecer quem sou diante de quem conhece o que eu preferiria ocultar de todos. quero alcançá-lo ao fim de um dia áspero, desprovido de serenidade fabricada. quero que me veja exausto, refratário, por vezes injusto, e que eu conserve a hombridade de reconhecer essas faltas sem convertê-las em álibi.
não busco morada contra a dor, mas companhia onde ela não precise ser dissimulada.
amar, decerto, é consentir em ser decifrado.
eu o sei agora. sei que você pode falhar, que o tempo é implacável com as certezas, que o erro e o desencontro rondam qualquer promessa. não procuro refúgio fácil de um romantismo cego. quero apenas que, a despeito de tudo, você saiba onde estou.
e eu estou aqui.
amar pela metade não poupa do sofrimento; apenas nos furta a dimensão daquilo que poderíamos ter sido. portanto, se algum dia me vir assustado, não confunda o meu tremor com arrependimento. é apenas o espanto legítimo de quem passou anos trancado, e, pela primeira vez, ousa escancarar a porta.
não pretendo voltar à margem. quero a profundidade deste afeto, ainda que me custe a armadura.
há uma dignidade soberana em perceber que, diante de certas presenças, a defesa já não faz sentido.
diante de você, não faz.