a que·da de ca·ra·vag·gio

vou contar-lhes uma história. uma história de fantasmas.

não daqueles espectros vulgares que agitam correntes nas trevas da meia-noite, nem daquelas pálidas mulheres que cruzam corredores úmidos sem deixar pegadas sobre o pó. tolice. essas são as banalidades do terror que alimentam o vulgo. os mortos aparecem simplesmente porque morreram; os vivos, por sua vez, aterrorizam-se porque jamais aprenderam que certas coisas não precisam de corpo para nos perseguir.

a história que vos ofereço é a de um homem devorado por aquilo mesmo que supostamente desejava. é por isso, unicamente por isso, que ainda hoje me interrogo, em meus pesadelos febris, se ele foi verdadeiramente uma vítima.

chamava-se caravaggio.

havia nele uma beleza singular, fúnebre, que de modo algum dependia dos traços do rosto. era algo infinitamente mais perigoso; uma acuidade mórbida diante das coisas, uma escuta atenta e subterrânea do mundo. quando alguém se dirigia a ele, caravaggio inclinava a cabeça. não com a humildade de quem busca compreender, mas com a avidez de quem tateia a parede à cata da rachadura oculta. parecia sempre à beira de desenterrar um segredo profano.

quem sabe, por essa mesma razão, por essa insaciável necropsia da realidade, jamais tenha conhecido a paz.

não afirmo que a felicidade lhe tenha sido negada; teve-a em doses suficientes. teve amor, dinheiro, intelecto agudo, saúde de ferro e amigos que o teriam seguido até o umbral do inferno. teve uma companhia cujo afeto possuía aquela coragem rara, quase insensata, própria dos que ainda não aprenderam a erguer escudos contra o destino. teve um lar onde o sol entrava pela manhã, livros raros, o rubor do vinho, música, e o repouso aos domingos.

teve, sobretudo, o futuro desenhado diante de si como uma planície imaculada.

foi justamente isso o que o condenou.

caravaggio pertencia a estirpe maldita de almas que supremamente não suportam a continuidade dos dias. para elas, a estabilidade é um insulto; a calmaria, uma doença sem febre. exigia, com urgência, que alguma engrenagem estivesse sempre prestes a estilhaçar-se.

se o dia corria sem percalços, seus olhos rondavam por desventuras. se era amado sem reservas, perscrutava a sombra da traição com a sofisticação de um algoz. se o ouro abundava, gastava-o como quem se livra de uma culpa. se uma manhã nascia tranquila, saía à noite procurando algo capaz de destruir a manhã seguinte.

— eu preciso sentir — balbuciava, justificando o inefável. — preciso sentir que existo.

a verdade, que ele ocultava até de si mesmo, era bem outra: caravaggio não sofria de vazio. o vazio era o seu refúgio secreto. o que o aterrorizava até a loucura era a plenitude. a paz pesava-lhe nos ombros como uma mortalha de chumbo. quando a felicidade prolongava-se por mais do que algumas semanas, faltava-lhe o ar nos pulmões; tornava-se irascível, cruel, possuído por um demônio interno que aborrecia vê-lo inteiro.

era então quando buscava a borda.

sempre a borda.

a borda da noite, a borda da taça, a borda do amor, a borda do abismo.

e, caminhando logo atrás dele, invariavelmente, estava o fantasma.

ignoro a origem exata dessa criatura. porventura tenha nascido com ele, grudada à sua medula, ou tenha sido tecida lentamente na infância, ponto a ponto, por meio de sussurros maternos, humilhações abafadas e silêncios gélidos que nenhuma criança deveria arquivar na memória. o fato irrefutável é que, quando o conheci, o espectro já lá estava, habitando o canto escuro de seus olhos.

não era um fantasma que incitava ao suicídio súbito. o suicídio é um ato trivial, uma porta aberta de supetão. este fantasma, diferentemente, sussurrava algo infinitamente mais refinado: a queda.

morrer é uma conclusão definitiva; cair é uma promessa contínua.

o fantasma exigia que ele saboreasse o instante prévio, aquele segundo milimétrico em que o homem compreende que ainda pode recuar, mas escolhe, com um sorriso sádico nos lábios, dar o passo em falso. a queda começava muito antes do abismo; iniciava-se no desdém do olhar, na chamada telefônica deliberadamente ignorada, na garrafa de destilado comprada com o dinheiro da família.

caravaggio erigira uma filosofia macabra sobre isso. afirmava que só possuímos verdadeiramente aquilo que colocamos em risco iminente.

o amor só tem valor quando prestes a extinguir-se; a vida, quando arde em chama trêmula.

o erro monstruoso não residia na percepção, pois os desvairados muitas vezes enxergam verdades que os prudentes ignoram por covardia; mas no método. o rapaz converteu a própria ruína em estética. vestia-se com esmero para arruinar-se; escolhia os salões mais suntuosos para cometer suas infâmias; dava aos seus vícios nomes aristocráticos, chamava à decadência de experimento e à crueldade de sinceridade absoluta.

enquanto a desgraça pudesse ser travestida de arte, ele poderia fingir que era o criador, e não a patética marionete do estrago.

certa noite, sob a meia-luz de um abajur, ele confessou-me com um riso seco.

— você já reparou como todas as pessoas esforçam-se por alcançar um porto seguro?

— é a ordem natural das coisas — respondi.

ele balançou a cabeça, os olhos febris brilhando na penumbra.

— eu anseio exatamente pelo oposto. quero ver… quero ver até onde é possível desabar sem perder a consciência do fundo.

naquele momento, compreendi que havia alguma coisa muito antiga falando pela boca dele. não se tratava de coragem, tampouco de loucura médica. era uma fome cósmica, um apetite voraz pelo nada.

o abismo atraía não pelo fim, mas pela urgência: era o único atalho para a certeza de estar vivo que a rotina havia apagado. é uma ironia cruel. alguns descobrem a própria existência no amor; outros, nas ruínas. era preciso perder para crer que possuía. o raciocínio era mudo, mas implacável.

‘‘isto era meu. agora dói. logo, existia’’.

a dor virou seu único certificado de realidade. quanto mais fundo o corte, maior a prova de que respirava.

os anos passaram como uma praga sobre sua juventude. aos trinta e poucos, caravaggio havia liquidado tudo o que possuía: fortuna, renome, amigos, amor, e a própria decência.

existe em cada homem uma secreta inclinação para o abismo. não a ânsia estéril do salto, mas a curiosidade de aproximar-se o bastante para sentir que o chão ainda existe.

o horror começa quando o abismo deixa de ser ameaça e torna-se habitação. quando o medo cede à sedução. quando a queda deixa de ser o acidente infeliz, e passa a ser linguagem. e, sobretudo, quando a pergunta muda de “por que estou fazendo isso?” para “até onde consigo ir?”.

assim foi.

o fantasma não precisou matar; bastou ensinar a cair.

quem sabe seja esse o único ofício dos fantasmas: aguardar, pacientes e imóveis, no fundo do corredor, até que, em uma noite sem lua, o homem abra a porta por vontade própria.

***

o silêncio estagnou na sala, denso e irredutível. a luz minguante do abajur arrastava sombras longas e febris pelas paredes, ao passo que quem me ouvia permanecia com o olhar estatelado no vazio. nenhum som por um século em segundos.

você… — a voz de um ouvinte desmanchou-se em um sopro oco, rouca e distante, qual sonâmbulo arrancado à força de um pesadelo. — você o conheceu de fato? caravaggio? ou ele não passa de uma fantasia?

um riso roçou o canto de meus lábios.

— quem sabe? — murmurei, erguendo os olhos para a janela, onde a negrura da noite nos espreitava como uma testemunha muda. — dizem que um fantasma é apenas uma lasca de nós mesmos que abdica do perdão. é só isso. fim da história.