nos·tal·gi·a
algumas lembranças não nos obedecem; elas simplesmente nos incidem, como um golpe no meio de uma tarde qualquer.
acreditamo-nos donos de nossa própria biografia apenas porque sabemos nomear datas e rostos. até que um cheiro, o desbotar de uma luz na vidraça, ou uma melodia solta ao longe rasgam a cortina do tempo. por um segundo, somos lançados diante de uma vida cuja extensão não sabemos se vivemos ou se alucinamos para suportarmos o presente.
a nostalgia traz consigo uma humilhação intrínseca provando-nos que nunca fomos inteiramente donos de nós mesmos. há sempre um retalho de nossa alma exilado em algum instante que o tempo jamais consentiu em devolver. talvez, por esse motivo, o que nos sufoque não seja a saudade de um momento, mas a falta do significado que ele carregava antes que perdêssemos a inocência de habitá-lo.
a vida continua a existir sem avisos. ninguém atravessa uma porta pela última vez sabendo que não haverá retorno, ou abraça uma alma imaginando que, um dia, aquele abraço será tudo o que restará dela.
costumo pensar sobre a felicidade e sua trágica cegueira de apenas reconhecer a eternidade de um instante depois que se tornou passado.
passado.
único cárcere absoluto.
nenhuma paixão, por mais desesperada que seja, ressuscita o que foi. nenhuma sensatez reconstrói uma primeira manhã, ou devolve a uma tarde a luz que tinha antes de terminar, ou restitui a um instante a desprevenção com que o atravessamos. o tempo não nos deve nada. a memória exagera porque precisa de um relevo para a ausência, de um contorno ao que já não pode ser tocado.
lembramos de pessoas, de casas, de vozes, de estações, de pequenos momentos que jamais suspeitamos serem os últimos.
certamente, o luto mais silencioso é o de tudo aquilo que fomos enquanto ainda não sabíamos que estávamos deixando de ser. quantas vezes não enterramos nossas próprias carcaças? a criança que acreditava em promessas; o jovem que ainda não conhecia o peso das perdas; a pessoa que esperávamos encontrar. dias que julgávamos intermináveis e futuros que imaginávamos como se nos pertencessem. restos de vidas que foram nossas e que, sem perceber, abandonamos.
quando dizemos “eu quero voltar”, balbuciamos uma mentira desesperada. não queremos o lugar, nem sequer o tempo que nele vivemos. queremos o privilégio de ignorar o fim; a liberdade de não saber que tudo o que amamos traz consigo, desde o primeiro instante, a sentença da própria ausência.
consciência.
quando algumas lembranças não nos obedecem, trata-se da consciência súbita de que uma parte de nossa vida aconteceu uma única vez.
vertigem em perceber que fomos vivos o bastante para carregar uma perda, e que, por mais que tenhamos mudado, envelhecido, esquecido, aprendido, e perdido, aquela existência ainda se faz presente-distante.
nostalgia.
nostálgico descobrir que aquilo que hoje nos falta, um dia foi tão nosso que sequer imaginávamos precisar guardá-lo.