co·ne·xão
há encontros que possuem a insolência de parecer uma lembrança.
existem pessoas que chegam sem anúncio, em um dia absolutamente ordinário, quando a vida não oferece qualquer indício de que está prestes a romper a monotonia. um lugar qualquer, uma circunstância improvável, uma palavra atirada ao acaso e, subitamente, alguma coisa se desloca no oculto de nós mesmos.
não sabemos nomear a natureza desse fenômeno. apenas reconhecemos a estranha sensação de já ter estado diante daquela pessoa, embora a memória não encontre registro algum que sustente a impressão. não há data a recuperar, rosto a identificar, lugar ao qual retornar. há somente esse reconhecimento, vindo de uma região anterior à própria lembrança, onde aquilo que não vivemos parece guardar a intimidade de algo perdido. e, com ela, a urgência inexplicável de uma dor antiga.
estranha condição do estranho-conhecido; uma familiaridade indecente em determinados olhares, e uma facilidade dolorosa em certas conversas como se a intimidade houvesse chegado muito antes de qualquer apresentação formal. às vezes, basta uma palavra pronunciada no mesmo segundo, um pensamento que encontra no outro o seu duplo exato, ou um silêncio que não exige preenchimento porque carrega em si todas as respostas. e então, nossa razão, tão vigilante de suas fronteiras, tão vaidosa de sua lucidez, começa a tatear possibilidades que a vida inteira tratamos como mero delírio literário.
vidas passadas? destinos entrelaçados? o fio vermelho que, segundo velhas fábulas, atravessa séculos e arrasta duas almas uma contra a outra, apesar das distâncias, desencontros, e todas as tentativas do mundo de fazê-las estranhas?
costumamos relegar essas crenças às páginas dos livros de cabeceira; ao território confortável das ilusões que admiramos sem jamais admitir que nelas acreditamos. até que alguém surge, e torna ridícula nossa vã necessidade de explicação lógica.
há conexões que não nascem; se reencontram.
o mais perturbador, contudo, não é a intensidade do primeiro contato; é o que deixa de herança quando se esvai. a vida continua, sim. continua com sua mecânica cega, seus relógios. outras pessoas desfilam diante de nós, novas conversas anestesiam os dias, outros olhos oferecem distração suficiente para que finjamos, a nós mesmos e aos outros, que o acontecimento anterior foi apenas uma anomalia passageira. permitimo-nos tentar de novo. ensaiamos afinidades de aluguel, frequentamos presenças, mendigamos ao outro qualquer fragmento daquela sensação de que um dia nos pareceu tão cristalina, tão inevitável.
por algum tempo, quase acreditamos em nossa própria mentira. todavia, há uma diferença entre achar alguém interessante e encontrar alguém que nos reconhece sem jamais ter nos conhecido.
após uma experiência dessa magnitude, somos condenados a comparar o incomparável. não porque outros sejam insuficientes, mas porque certas vivências cravam em nós uma medida definitiva, uma voltagem que a mera força da vontade jamais conseguirá reproduzir. podemos atulhar os dias com afazeres, saciar o ego, buscar entretenimento, afeto diluído, ou qualquer outra morfina emocional. podemos até convencer o espelho de que seguimos adiante.
mas a consciência sabe.
ela sempre sabe.
permanece silenciosa; à espreita. até que uma música, uma frase solta, uma lembrança ou um lugar qualquer devolva à superfície aquilo que tentamos soterrar. compreendemos, então, que não sentíamos falta apenas de uma pessoa; sentíamos falta da versão de nós mesmos que respirava na presença dela. daquela assustadora facilidade de ser decifrado sem precisar traduzir a própria existência. a sensação intolerável de que, por alguns instantes, breves e cruéis, o universo havia cometido uma coincidência exata demais para ser chamada apenas de acaso.
penso ser esse o motivo que certas feridas demorem tanto a cicatrizar, se é que cicatrizam. não dependem da matéria, da presença física. algumas conexões infiltram-se na própria arquitetura da alma e passam a existir em um limbo onde o tempo e a distância não alcançam. a marca indelével de ter encontrado, ao menos uma vez na vida, com alguém diante de quem o mundo inteiro pareceu, por um segundo, um pouco menos hostil; ligeiramente familiar.
seria esse o verdadeiro absurdo da existência?
pessoas passam. algumas se arrastam por anos, outras ocupam uma estação, poucas duram o espaço de um único suspiro. a duração nunca foi, e jamais será, garantia de importância. há presenças que atravessam décadas roçando nossa pele sem jamais tocar nossos nervos, ao passo que outras exigem apenas algumas horas para cavar em nós uma eternidade irreversível.
por isso, já não sei se acredito em fios vermelhos, reencarnações ou nas mentiras reconfortantes que inventamos para aplacar a incompreensão. talvez tudo não passe de um grande e estúpido acaso. talvez sejamos apenas nós, criaturas terrivelmente sós e famintas de sentido, transformando um encontro improvável em alguma espécie de acontecimento sagrado.
ou, quem sabe, seja exatamente a isso que chamamos de saudade quando ainda não sabemos admitir que sentimos falta. falta daquele estado raro de consciência em que, lado a lado ou mesmo à distância, alguma coisa em nós parecia finalmente encontrar o seu lugar de repouso. como se, por algumas horas, tivéssemos sido devolvidos a uma parte de nós que não sabíamos ter perdido.
talvez nunca venhamos a saber o que foi aquilo.
há coincidências que nos atingem como uma condenação, deixando-nos com o gosto amargo de terem chegado tarde demais. a parte bela e cruel é nunca saber se aquela alma desabou em nossa vida para ficar, ou apenas para nos provar que uma forma tão absoluta de encontro era, de fato, possível.
pessoas, por mais que imploremos de joelhos, pertencem irrevogavelmente ao tempo.
conexões, não.
conexões, uma vez geradas, não se limitam ao passado; moldam tudo o que somos a partir de então.
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