pro·fa·no
há desejos que não pedem passagem; arrombam a porta e, uma vez dentro, passam a chamar de lar aquilo que destruíram.
existe uma obscenidade litúrgica em desejar alguém além do juízo. não me refiro à falta que se satisfaz com a presença, tampouco ao afeto de salão o qual sabe respeitar distâncias e polir a própria dignidade. refiro-me àquela pulsão que, sob o disfarce de um encontro, encarcera a razão na cela da necessidade. o outro deixa de ser uma escolha, uma preferência estética ou moral, para converter-se em química. primeiro, pensamos nele por vontade; depois, contra a vontade; por fim, exaustos da distinção, não sabemos onde termina o sujeito e começa o vício.
indecente a prontidão com que uma pessoa se torna reação. basta um olhar, uma proximidade calculadamente inocente, a promessa contida em um gesto que não deveria significar nada, e algo em nós incendeia sem pedir licença à consciência.
o corpo é um discípulo devoto da urgência, captando em silêncio o que a moral tardaria décadas a admitir. existem presenças que não se contemplam impunemente. depois delas, o mundo não é apenas deserto; é uma abstinência.
eu conheço o perigo.
irresistível perigo; substância desse êxtase.
existe um prazer quase sacrílego em aproximar a mão daquilo que nos foi ensinado a não tocar; uma volúpia em constatar que certas fronteiras apenas parecem sagradas enquanto nossa ousadia não as profana. entre o pecado e o desejo, habita uma intimidade que os virtuosos fingem ignorar; algo agradavelmente perverso em saber que deveríamos retroceder e, ainda assim, escolher avançar.
não almejo a ternura que pede licença, essa cortesia dos tímidos. quero a que irrompe, tardia e inevitável, para não deixar espaço ao arrependimento. ver a prudência dissolver-se na tua presença que se impõe à minha vontade, em um assalto sem violência. há pessoas que consolam, é certo; tu, porém, é incendiário.
seria isso que nos aterra?
não a intensidade do fogo, mas a lucidez. saber que cada aproximação é o combustível da próxima, que o alívio do reencontro é apenas a trégua de uma necessidade que batizamos, com falsa elegância, de paixão.
dopamina. adrenalina. oxitocina. nomenclaturas áridas para o que, em séculos sombrios, atribuiríamos aos demônios ou à fatalidade dos deuses. pouco importa o rótulo quando o efeito é a extinção do caminho de volta.
e eu, insisto, não quero voltar.
crueldade lúdica nesse xadrez; nessa dança em que o outro mapeia nossas fragilidades com precisão. em que o silêncio amaça mais que qualquer juramento e a espera é manipulada como instrumento de domínio. não há o desejo de ferir, mas o mútuo reconhecimento de que a rendição é uma de forma conconquista. intimidades assim não se edificam com delicadeza; constroem-se com tensão, provocação, convicção de que basta um passo em falso para aquilo que chamávamos de controle deixe de existir.
gosto da parte que me desmantela, da queda que precede o voo, da pequena morte da racionalidade quando o desejo assume. regozijo-me por descobrir que existe, em mim, algo suficientemente corajoso para desafiar aquilo que passei anos nomeando de bom senso. o amor, quando domesticado, é mera rotina; há paixões que apenas respiram se encontrarem uma porta proibida para arrombar.
tu.
tu, se me interrogares onde termina o afeto e inicia a dependência, não saberei responder. talvez a fronteira tenha desaparecido no exato instante em que a tua ausência passou a doer mais que a tua presença poderia curar. ou, tenha ocorrido antes, quando confundi ansiedade com pressentimento, espera com esperança, e o pânico da perda com a prova irrefutável do querer. sei apenas que há uma diferença entre desejar alguém e precisar daquilo que sentimos quando esse alguém nos deseja de volta.
ao fim, não sei se te quero ou se almejo o atordoamento que tu, e apenas tu, provocas. não sei se é paixão, compulsão, pecado ou se é apenas o cérebro encontrando uma maneira sofisticada de dar outro sentido à carência. quando te aproximas, minha última barreira de negociação se esvai. e, quando o fósforo risca, não há oração, princípio ético ou mandamento santo que me convença a apagar o fogo que eu mesmo, em um ato de suprema devoção, insisti em acender.
existem vícios que nos consomem a conta-gotas; o meu possui a polidez de me fazer antecipar o desfecho justamente no instante em que deveria fugir. se isso é pecado, que ao menos seja cometido de olhos abertos. afinal, há uma forma de santidade no ato de escolher, com plena consciência, a própria ruína.
sobretudo quando ela traz o teu nome e sorri com a certeza de quem sempre soube que eu jamais aprenderia a dizer não.
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