(im).per.fei.tos
há uma parte do amor que não romantizamos o bastante: a descoberta de que amar uma pessoa é, inevitavelmente, aprender a conviver com aquilo que nela não sabemos amar de imediato.
inicialmente, ninguém nos parece complexo. enquanto o outro habita o território vago da possibilidade, resguarda-se o privilégio intangível da distância. seus hábitos seduzem porque ainda não nos alcançam, seus silêncios guardam o inexplorado, suas manias, vistas de fora, vestem-se daquela excentricidade leve que a paixão coroa de encanto. conhecemos tão somente os gestos que nos oferece; a narrativa que escolhe confessar; a fachada iluminada de sua arquitetura.
existe uma beleza inegável em não conhecer alguém por inteiro. a inocência apaixonada tem o dom singular de transmutar a penumbra em claridade. posteriormente, a intimidade cumpre o irrevogável ofício de desvelar.
pouco a pouco, topamos com os porões onde o outro se tranca. os medos que não sabem pedir colo, as iras desmedidas, os hábitos que, de tão repetidos, perdem a graça antiga e passam a pesar como rotina, e os escombros de afetos que a memória não sepultou. descobrimos o silêncio que guarda quando a voz se faz necessária, a armadura que veste onde não há combate, o modo como torce o sentido das palavras, e a facilidade com que fere sem sequer perceber o corte. sobrevém, inevitavelmente, o instante mais humilhante da travessia, quando afinal compreendemos que nunca fomos enganados, mas apenas começamos a conhecê-lo.
bem nesse instante, no silêncio dessa revelação, muitos optam pela partida. não porque tenham encontrado crueldade, desrespeito ou qualquer incompatibilidade que exija a dignidade de uma distância segura. partem porque depararam-se, enfim, com uma pessoa. uma pessoa inteira, contraditória, imperfeita, portadora de feridas que dissonam das nossas e de limites que nos impõem a dura evidência de que amar não é um exercício de contemplação, mas de trânsito comum.
fomos adestrados na crença frágil de que todo atrito é um erro de cálculo; uma falha de rota. convertemos o desacordo em sentença e o tédio em diagnóstico, buscando em toda esquina o fantasma da alma gêmea que nos compreenderá sem que jamais precisemos explicar duas vezes aquilo que sentimos.
paira sobre nós o pânico moderno da escolha imperfeita. examinamos afinidades como quem audita contratos, antevendo o dano e blindando o peito contra o risco. queremos a garantia de que o tempo jamais nos cobrará o imposto de amar o que é falho. e, nessa trégua egoísta que estabelecemos com a dor, esquecemos o reverso da moeda: também somos a curva difícil no caminho de alguém. também guardamos opacidades, feridas desmedidas e dias em que o nosso silêncio exige do outro um ato de heroísmo. somos cansativos; injustos; incompreensíveis. haverá dias em que, exausto, o outro precisará recolher o fôlego antes de conseguir amar-nos outra vez.
contudo, isso não constitui um veredito contra o amor, mas a derrocada definitiva da fantasia.
amar não é condescender com o que nos destrói. não há grandeza na permanência onde a alma murcha ou o respeito se esvai. mas, entre a violência do abuso e o delírio da perfeição, existe um vasto território que a pressa contemporânea abandonou; trata-se do domínio silencioso da paciência e reparação.
o amor verdadeiro há de exigir de nós algo mais árduo. pedirá paciência onde nossa primeira inclinação for o julgamento, curiosidade onde acreditamos possuir todas as respostas, e humildade quando constatarmos que a pessoa que amamos sofreu por uma ferida que sequer notamos ter aberto. permanecer não é sinônimo de suportar o insuportável ou curvar-se a tudo; é sustentar o olhar na tormenta sem fazer da fuga um sinônimo de lucidez.
comovente constatar que o outro não nos decifrou completamente e, ainda assim, insistiu na tradução. somos constituídos de contradições que transbordam qualquer diálogo, de memórias que distorcem o olhar e de medos que respondem por nós antes mesmo do pensamento. amar alguém é aprender um idioma particular enquanto descobrimos, no mesmo fôlego, que também falamos uma língua intrincada.
a verdadeira maturidade não consiste em encontrar quem nos desvenda sem erro, mas esbarrar em quem decida permanecer revirando as páginas até que nosso sentido, afinal, lhe pertença.
eventualmente, a cortina da novidade desaba para ambos os lados. o outro verá aquilo que tentamos ocultar sob o equilíbrio; descobrirá nossas pequenas crueldades, egoísmos, sombras de nossas inseguranças, o modo brusco como nos fechamos ao primeiro sinal de ferimento, e a injustiça de exigirmos aquilo que nós mesmos somos incapazes de oferecer. a utopia, então, dissipa-se para ambos, restando a verdadeira escolha que já não se faz entre a criatura ideal e a criatura real, mas entre abraçar o peso da realidade ou persistir na busca por uma ficção que jamais ouse nos contrariar.
confundimos esse exato colapso com a extinção do afeto pois é o instante em que o encanto cede lugar à gravidade. já não nos move a curiosidade do achado, mas o peso da escolha consciente. deixamos de perguntar ‘‘quem és tu?’’ para encarar a interrogação mais alta: ‘‘o que faço com o que agora sei de ti?’’.
não anseio por um amor que se sustente apenas na facilidade; quero um que permaneça possível quando nós mesmos deixarmos de ser fáceis um para o outro. busco a intimidade que sobrevive à revelação, e não a fantasia que dela depende para existir. quero o tipo de vínculo em que duas pessoas conseguem fitar o que há de mais desagradável em si mesmas, o que no outro exige labor, e ainda assim não confundem dificuldade com ausência de valor.
no fim, a questão nunca foi encontrar alguém fácil de amar, pois somos todos difíceis em algum lugar. todos carregamos versões de nós mesmos que despontam quando o cansaço, o medo ou a ferida tomam as rédeas. a maturidade do afeto não reside em abolir o esforço, mas no que fazemos quando o devaneio enfim se dissolve e conseguimos contemplar o outro sem o deslumbramento da novidade e sem o pavor da desilusão. é o instante em que observamos as falhas alheias, reconhecendo nelas o reflexo de nossas próprias incapacidades; no qual ninguém mais precisa fingir perfeição para continuar merecendo escolha. o amor deixa de ser a vã promessa de um caminho isento de atritos para transformar-se em algo raro.
a decisão silenciosa de olhar para alguém em toda a sua complexidade e, sem idealizá-lo, dizer: ‘‘vale a pena o esforço de entendermos um ao outro’’.