pa·ra·do·xo
há uma espécie de desejo que nos acompanha em silêncio durante décadas.
desejamos alguém que nos reconheça para além daquilo que aprendemos a mostrar, que note a apatia oculta em uma resposta curta, sinta a agitação debaixo do riso e alcance o fragmento desperto enquanto o resto do mundo dorme. contudo, mal essa presença se materializa, e o pavor nos domina.
paradoxal, não?
esperamos anos pela compreensão e, frente à sua concretude, inventamos qualquer pretexto para fugir. mudamos o rumo da conversa; abafamos a voz; engolimos a confissão quase dita. observa-se uma crueldade refinada nesse recuo, semelhante ao fechar lento de uma porta para que ninguém perceba.
errônea tentativa.
certas vergonhas envelhecem conosco, e medos antigos tornam-se traços de caráter. escondemos sentimentos em cômodos vedados onde ninguém penetra e, mais tarde, questionamos a existência daquela região deserta no peito, mesmo em meio à multidão.
a revelação demanda caos.
“responda-me, qual sua culpa no caos que o cerca?”, questiono ao espelho.
o outro precisa deparar-se com contradições, ver vacilar o que julgávamos inabalável, tocar a criança medrosa, o adulto fingido, a parcela mesquinha, carente e faminta por afeto sem confissão possível.
entregar tal carga é quase insuportável; afinal, a exposição extingue a confortável ignorância anterior. aqueles que nos alcançam passam a saber onde a voz desfalece, onde o orgulho prospera, quais pausas indicam ausência ou súplica por companhia, tornando-se conhecedores do que preferiríamos ignorar em nós mesmos.
seria esse o motivo pelo qual muitos passem a vida inteira aguardando o resgate enquanto conspiram contra a própria descoberta?
há quem ofereça a casca e aguarde em segredo a coragem alheia para o interior; há quem suplique por amor exatamente onde se crê inadmissível amar.
melancólico constatar que alguém poderia ter alcançado nosso íntimo, mas deparou-se apenas com abalos passados.
permanecemos enclausurados no lado interno, ouvindo o eco distante de quem desistiu e partiu, sem a certeza de termos possuído, em algum segundo daquela hesitação, a bravura necessária para suplicar a permanência; gritar a plenos pulmões que gostaríamos que ficasse.
perdão pela fratura criada, cuja reparação restou sepultada antes de ver a luz. perdão por essa solidão incurável, jamais encontrei quem pudesse habitar comigo o tempo de compreendê-la.
mas, acalme-se; perdoe-me ainda. estou aprendendo, e, embora seja complicado admitir, sinto que estou melhorando.