re·en·con·tro
tenho tido saudades, mas não sei de quê.
talvez de mim, da época em que os dias não pesavam tanto nos ombros.
talvez de você.
passamos a vida inventando peso para o vazio. convertemos ausência em figura, chamamos o passado de presente, e deixamos com que os fantasmas ocupem a casa inteira apenas para não admitirmos que o nada é apenas nada.
se doer for o preço de ter vivido algo bom, eu pago.
mas cansa. cansa muito.
às vezes, a vida se encarrega de devolver os que se foram. surge diante de nós um estranho de rosto familiar, revestido pela pele de quem outrora conhecemos e que, aos poucos, se dissolvera na distância.
o peito dá um tranco.
se voltarei a te ver, não sei. mas, se um dia decidir aparecer de novo, não venha com explicações.
dispensemos discursos ensaiados, justificativas e as promessas de que agora será diferente. o amor real não tem essa pompa toda; ele cabe no silêncio de um café tomado sem pressa, no modo como a mão descansa na mesa, em um abraço imprevisto ou na coragem de ficar quando o tempo fecha.
carrego os cortes dos tombos antigos, e o buraco que você deixou na rotina. todavia, recuso a desacreditar nos reencontros.
não sou mais o mesmo, e você também não. mas, se trouxer nos olhos a vontade real de ficar, e não apenas a curiosidade de ver se ainda estou aqui, eu rasgo todos os meus planos, largo as defesas, pulo as precauções e aceito dançar no escuro contigo até o dia vir cobrar-nos a conta.
tenho tido saudades, mas agora sei de quê.
de mim, da época em que os dias não pesavam tanto nos ombros.
de você.