post mor·tem
há uma hora da noite em que a realidade perde um pouco da autoridade.
é quando o mundo já se calou o bastante para que aquilo que não pode existir durante o dia encontre uma brecha. as coisas deixam de obedecer às próprias leis. os mortos podem voltar. os ausentes podem entrar pela porta. pessoas que jamais poderiam permanecer juntas deitam-se lado a lado, como se a distância fosse apenas um erro temporário do mundo.
é nessa hora que encontro você.
o sonho não começa quando durmo. talvez comece quando, cansado de sentir sua falta acordado, fecho os olhos e finalmente paro de lutar contra sua ausência. e, então, você está lá, como se nunca tivesse ido. como se meu corpo soubesse uma verdade que a vida, durante o dia, me obriga a esquecer.
no sonho o tempo não passa. ou passa de um modo que não me alcança. não existe amanhã, porque amanhã é uma palavra que inventaram para aquilo que sempre nos tira alguma coisa. existe apenas você; existe apenas este instante.
quem sabe seja por isso que eu tenha tanto medo de acordar. acordar não é voltar à realidade; é ser expulso de você. é abrir os olhos e descobrir, com a brutalidade de uma coisa simples, que a pessoa que há pouco respirava ao meu lado nunca esteve ali.
é perder você pela segunda vez.
quem sou eu quando estou com você? talvez não seja exatamente quem fui. talvez também não seja quem serei. sou alguma coisa entre ambas; uma identidade provisória, ainda não destruída pelo tempo, ainda não obrigada a aprender a viver sem aquilo que amava.
há uma ternura quase infantil em permanecer ali, nesse lugar sem relógio, onde nada terminou porque nada precisa terminar.
mas o amanhecer é uma espécie de violência. ele não pergunta se estamos prontos. a luz entra pelas frestas, toca os objetos, devolve seus nomes às coisas. a cama volta a ser apenas uma cama. o quarto volta a ser um quarto. e você torna-se novamente aquilo que a realidade insiste em chamar de ausência.
é cruel que o mundo continue exatamente igual depois que alguém desaparece dele.
a manhã não sabe o que aconteceu durante a noite.
por isso, enquanto ainda é noite, permaneço.
permaneço nesse intervalo delicado entre o que fomos e o que seremos; onde o passado ainda respira e o futuro não chegou para me arrancar de você. enquanto durmo, o fim ainda não aconteceu. quem sabe isso seja tudo o que o amor pode fazer quando já não permanece na realidade: dar-nos, por algumas horas, uma mentira tão bonita que o coração opta por chamá-la de vida.
então a luz começa a nascer.
devagar.
e eu sei o que vem depois.
pela última vez, encontro sua mão. aperto-a; não para impedir que você vá, mas, pela primeira vez, apenas para agradecer que, enquanto ainda era noite, você esteve aqui.